Uma coisa verde e boa
Para um novo ano que se aproxima
A primeira vez que ela apareceu foi quando fui puxar meu biquiní do varal de chão e lá estava ela; grandona, sossegada.
Depois, pela segunda vez, durante um animado carteado na varanda, pousou no ombro de Voinha, que sorriu, contente.
E a terceira vez foi na porta do hotel de beira de estrada, de número 17 - A Estrela - que vi, esverdeada, esse bicho folha que nós, humanos, apelidamos de Esperança.
E, porquê três vezes é o número dos encantamentos, quis vir aqui, desejar para mim mesma e para você uma coisa verde e boa para o novo ano que se aproxima.
Que você tenha apetite pela vida e que possa saciar as fomes do corpo e da alma; que o melhor aconteça e que, ainda que de forma tardia, você possa compreender que foi o melhor. Que o seu bolo cresça e perfume a casa inteira. Que sua casa seja seu lar, seu templo, um pouso seguro.
Para quem tanto espera, desejo que aquela aprovação aconteça; que os dois tracinhos aparecem, que seja enfim, a sua hora e a sua vez.
Mesmo que pareça improvável, desejo que, num dia qualquer do próximo ano, você seja aplaudido, que falem bem de ti numa reunião em que você nem está, que te indiquem para aquele projeto maravilhoso.
E, porquê nem tudo precisa ser grave, desejo que não faltem pequenas tolices, uma série boba e previsível, um coquetel com guarda-chuva, uma festa temática, essas coisinhas fundamentais para a manutenção dos sorrisos.
Que aquele livro caia nas suas mãos no momento certo e, pela primeira vez em anos, te mantenha acordada madrugada adentro, lembrando porque afinal você gosta tanto dessa coisa de ler e escrever.
Que você receba áudios longos e cheios de histórias daquela pessoa querida que foi morar longe e faz falta.
Que você receba abraços de criancinhas e de idosos e até de quem não é uma coisa nem outra; que, num momento de puro escapismo — ou férias — você possa ir até o mar, ou na serra, ou em qualquer canto desse mundão em que a palavra paraíso não parece forçada, mas natural.
Uma coisa verde e boa que eu desejo para o próximo ano é: movimento. Dança, alongamento, corrida, massagens, posturas, pesos. O que te fizer sentir o corpo vivo, ativo e consciente.
Não por pressão estética, por discursos impositivos, nem mesmo para manter a sanidade mental ( embora ajude) mas pelo prazer de ter um corpo e movê-lo no mundo.
E, também, por consequência, desejo descanso, esse pequeno luxo moderno. Não fazer nada e não sentir culpa alguma por isso, amém.
E, para inaugurar um novo tipo de ousadia, desejo que você tenha coragem de provar mais de três sabores na sorveteria, pedir a casquinha e até mesmo a calda. Quem encara?
E, porquê talvez demande mais coragem ainda do que encarar a balconista que retira bolas perfeitas, eu desejo que você consiga remover o band-aid de velhas feridas. Que olhe para elas e que limpe tudo; que você se cure e se perdoe pelas vezes em que não conseguiu ser como gostaria.
Mais do que tudo, eu desejo que se lembre que, nesta vida, estamos todos nos levando de volta para casa e que, pelo caminho, bichinhos reluzentes, que lembram folhas novas, podem pousar na gente a qualquer hora.




Que lindo!
Tem texto que abraça e deixa os olhos aguadinhos... Obrigada por isso.🌻