Por onde andei
Enquanto eu me procurava; e o bolo de chocolate que me trouxe de volta
Houve um tempo em que eu desejava ardentemente uma batedeira planetária da Kitchen Aid. Vermelha e brilhante, potente e durável.
Na minha imaginação, ela teria seu lugar de honra em uma cozinha linda, banhada de luz do sol, com uma ilha central, uma enorme mesa de madeira. Teria uma das paredes cheinhas de livros que para mim merecem viver no coração da casa ainda que convivendo com a consequência de acumularem gordura e respingos, toques de mão cheia de farinha, pedaços de vida encrustada entre as páginas.
A realidade é sempre outra. Hoje, minha cozinha é toda azulada, aberta para a sala, compacta, mas do tamanho das minhas possibilidades; talvez maior.
Não tenho batedeira; improviso com um mix três em um dos mais honestos, presente da minha madrasta, com quem compartilho esse torpor diante de tudo que é de comer. É um tipo de sensibilidade que pode nascer em qualquer terreno, mas que precisa ser minimamente nutrida.
Me lembrei desse sonho da batedeira porquê tenho andado distante da Cozinha. Não a da minha casa - e das demais casas que frequento - mas a Cozinha do Conchas - que, para mim, funciona como local em que elaboro o mundo a partir das fomes, das receitas, dos sabores, do nutrir.
Minha atenção foi deslocada para um outro cômodo, mais reservado, menos frequentado. Falarei sobre ele mais para frente, quando estiver pronta. Por agora, e apenas por hoje, quis contar sobre a receita de bolo de chocolate que me trouxe de volta.
O que guardei comigo
Faz mais ou menos dois anos que minha avó Rosita migrou de seu apartamento para um lar de repouso. Não gosto deste nome e nem de suas sutis variações; é o que é, no entanto. Estive com minha mãe algumas vezes lá para esvaziar os cômodos.
Comigo, trouxe algumas preciosidades sem nenhum valor material. A maior delas é uma agenda de capa preta e textura rugosa, com uma palavra em prata: Sonda.
Trata-se de um brinde, do ano de 1980, de uma empresa de sondagens e engenharia que, dentre várias obras na Capital Federal, ergueu a estrutura de 11 blocos residenciais no meu bairro; o meu foi um deles.
Abarrotado de papéis e colagens, o caderno, nove anos mais velho que eu, conta com uma página de tabela de vergalhões para armação; bilotas em polegadas, em milímetros, em quilos. Na parte onde diz Notas Pessoais, reconheço a letra da minha avó escrevendo uma massa para torta que leva farinha, leite frio, fermento, manteiga, sal, gema para pincelar.
Reconheço outras caligrafias, que hora deixam recados, hora passam “à limpo” algumas receitas; minhas primas Luiza, Larissa e Thaís. Minha mãe, a tia Bel, tia Marina, eu mesma, quando ainda não tinha aceitado a força itálica da minha escrita canhota, e buscava arredondar os cantos.
Vejo receitas médicas, um texto de remédio para asma que parece delicioso : uma bebida que leva mel, gengibre, açafrão, suco de limão, vejam como nada é novo, como tudo se repete, troca-se uma coisinha, mas ali está, sempre esteve, a gente pensa que é esperto e inédito.
O que busco não se apresenta fácil, mas, também, não tenho pressa. Tem tanta gente nessas páginas. Quem escreveu ou passou as receitas, os nomes das “autoras” entre parênteses do lado do título. Brevidade econômica. Bombocado. Broa de fubá. Gelatina colorida. Pão de ló. Biscoito de queijo.
Maravilhada, viro páginas, e me encanto com recortes de uma matéria de revista feminina que traz sanduíches atribuídos à celebridades: John Travolta, que leva pão preto com recheio de rabanetes, azeitonas e pasta de queijo roquefort. David Bowie, que seria representado por fatias de pão torrado com manteiga, alface, bacon torradinho e tomate em fatias.
Me pergunto em que momento minha vó faria algo assim, e o mesmo vale para os recortes de preparos distantes, como pato no tucupi, tournedos rossini, sorvete de café, patê maison, torta Saint Honoré e um punhado de estrangeirismos.
Um livro de receitas pode ser um espaço de sonho coletivo, não tem nada que ver com a realidade de uma cozinha doméstica, cotidiana, limitada pelo orçamento, pelo cansaço, pelo espírito de cada tempo.
O que estou procurando, pra variar, está na última página escrita. No dia 12 de junho de 1980, minha vó anotou o Bolo da Cida, que é a receita que eu buscava, justamente por prescindir de batedeira, por caber certinho na forma que também guardei daquela casa, por caber no tempo que eu tinha numa tarde de terça-feira e por talvez poder unir as pessoas que eu chamei para comer. A maioria, afinal, tem a memória desse bolo, tem a letra cursiva neste caderno. É família, por mais difícil que isso possa ser.
Enquanto reúno os ingredientes, tenho um momento de clareza pura. O pensamento veio límpido, córrego de cachoeira na época da seca: é melhor ter tempo. Eu quis tanto ter a batedeira vermelha, mas, o que faz falta, hoje, é outra coisa.
Uma batedeira parada, serve para quê? Ter tempo para bater um bolo, ainda que no improviso. É muito melhor ter com quem compartilhar. Poder dizer assim, vem aqui em casa, estou fazendo um bolo.
Sem marcar na agenda, sem consultar com antecedência, sem fazer rodeios emocionais nem ponderar mágoas passadas, presentes e potenciais. Era pra ser simples. Raramente é. Nos tornamos ocupados, ocupadíssimos. Entre a ânsia de ter, nem restou direito o tédio de possuir; você pode comprar, parcelar, mas…vai usar?
Em poucas semanas, voltei algumas vezes na feitura do bolo. Fiz para minha irmã, mãe e tias; fiz para amigas, levei para os colegas de trabalho. Adaptei para nossos tempos e vontades. Não reconheço margarina como comestível, então, usei manteiga, óleo vegetal de girassol. Fiz o creme com leite de aveia, troquei o achocolatado em pó por cacau, inclui um pouco de baunilha, raspas de cumaru, canela, noz moscada.
Lembrei das ocasiões em que subia os degraus de dois em dois até a porta da minha vó, na época em que as paredes eram azuladas como minha casa hoje é, em estar suada dentro do uniforme, comer esse bolo gelado com guaraná. Uma dessas foi a última e eu nem sabia que era. Para quê serve uma casa, uma cozinha, uma receita?
Talvez para guardar e manter viva, para lembrar e também fazer um pouquinho diferente, para abrir as portas e receber.
Espero que você possa modificar com amor e cuidado, se preciso for, o que quer que tenha herdado.






Que nostalgia lembrar desse bolo e desses memórias compartilhada! ❤️
Obrigado por me oferecer o que eu precisava ler nesta manhã de segunda. ❤️